Terça-feira, Dezembro 15, 2009

Lady D.

Era verdade que viviam em um daqueles tempos em que era de extrema importância os valores morais de um conjunto que podia se nominar correto dentro daquela destorcida proporção de vida. E que a sua opinião pessoal não passava de deboche para aqueles que faziam questão de não ouvir e mesmo assim debochar.
Mesmo assim, não seria certo culpar estes pela sua escolha de permanecer calada. E foi por muitos anos que escondeu tudo dele.
Era nos últimos 3 anos que já não poderia mais tocá-lo, ou melhor, que já não queria mais tocá-lo, nem com a delicadeza de maternidade que sempre carregou, e é bom frisar, não importando o que aconteceu. Mas foi nos últimos três anos que já que nunca tinha sido mãe de uma criança verdadeira, perdera também o amor materno por aquele que não cumpriu o seu dever de provedor. Aqui, a palavra amor se encontra equivocada, pensando em que este seria nada mais do que o desejo dela de ter o amor e não sua existência material.
Perguntaram um dia se eles haviam se amado, o que ela respondeu prontamente, mas não efusante com um sim, é claro. Ao ser questionada sobre o que mudara então, e após um silêncio, nada longo, mas necessário, como se para que aquela resposta tivesse sentido teria que haver o silêncio, disse que eles, como casal, haviam se amado e então carregaram o amor até o fim. É claro que ela sabia que isto seria mais uma mentira para não incomodar o seu tempo de não compreensão da dor como indivíduo e matéria.
E que só ela sabia exatamente o que mudara, o que ele há muito já tinha feito questão de jogar ao esquecimento e por ser esquecido tinha se tornado ainda mais presente nela, até que insuportavel se fez.
Como todo cavalheiro que segue as presunções morais daqueles que ditam as regras, ele pretendia deixá-la por mais uma noite a fim de encontrar diversão naquelas que nunca carregaram moralidade e nunca obedeceram regras.
Ao chegar em casa, o homem um pouco desnorteado e com todos os seus fios brancos de cabelo a mostra, ela ainda acordada o olhou com repulsa, não pelas mulheres que com eles haviam se deitado naquela noite, mas permitu sentir a repulsa que há 16 anos escondia.
O homem desnorteado e jogado em meio aos lençois é questionado de seu paradeiro, ela teria a resposta: "os céus, minha querida, os céus.". E então, impulsionada pela repulsa, lhe deitou a cabeça em seu colo, acariciou sua cabeça branca e ao vê-lo adormecer mais do que satisfeito torceu-lhe o pescoço e repetiu:
"Ao céu, meu querido, ao céu.".

Touched by Ana.

Thought about leaving when you were just standing there looking to something else as I could pass you by and not kiss your lips.

O fato é que Ana não sabia despedir-se daquilo que ainda podia ser, mesmo que houvesse tanta certeza e razão de não querer e do querer.
Ana que tinha pintas nas bochechas e na testa e que tinha braços longos e brancos, que tinha boca vermelha e dentes pálidos, que tinha coluna ligeiramente torta e decote coberto, tinha também essa necessidade de toque, a cada dez metros Ana parava para tocar um banco, uma parede, uma árvore, uma roupa, um quadro, uma lâmpada, um cachorro, uma pessoa. Essa era Ana quando podia tocar, leve e aliviada.
E antes de Ana saber que não poderia se despedir daquele que ainda podia ser, ela o tocou e por isso, por tocá-lo foi proibida de sentir todos os outros dez metros, as paredes, os bancos, as árvores e as pessoas.
Essa era Ana que não sabia despedir-se daquilo que ainda podia ser e que no entanto, já não queria mais tocar.

Domingo, Novembro 22, 2009

She´s so careless

About the things I love:

love, itself.

Sexta-feira, Outubro 30, 2009

love for bella according to him.

see, she had lights under her knees and she had tongues around her body
and still, she had me.




Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Sobre as noites em que você não era minha

Éramos sim aquelas pessoas artistas que em alguns dias não saíam da cama, trepavamos e não tomávamos café e de vez em quando, sem vícios, fumávamos com a beleza de quem nunca fumou e não sabe quando engolir. Muito fácil de identificar também que eramos amantes, casal, mesmo sem mãos dadas e abraços. Casados. Pessoas artistas que passam dias na cama sem vícios e casados, nada combina. Mas você combinava comigo e eu queria combinar com você.
Então de dois, éramos quatro, cinco, três. Porque nas noites em que você não era minha, ele a tocava, pegava no colo e eu olhava renegando qualquer toque de qualquer outra/outro que achasse possível tirar os olhos de você. O terrível é que em umas dessas noites que resolvi nunca mais lhe deixar. Porque no fim, você levantava e saía do lado de quem estava deitada, removia os braços, as pernas e me pegava pelas mãos dizendo nada mais importar.

Quinta-feira, Outubro 22, 2009

que você saiba

e que você saiba que o último vintedoisdeoutubro ela era boa e sua e que no mesmo vintedoisdeoutubro você já era errado e que os próximos vintedoisdeoutubros vão perder o dom de significar algo.

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

I don't know If there's any point to it all But I sure love hearing your voice

We all have hearts so pure
But some hearts can't endure
The iridescent light of folly's lure
We give in to the sound
Of that old train coming 'round
Packed with others getting lost and found

Terça-feira, Outubro 20, 2009

Inventando corpos com Juli

"My hands invent another body for your body" (Octavio Paz -1914)

Quando Juli apareceu a ignorei porque tinha cabelos curtos, escuros e pele muito clara. Não. A verdade é que a ignorei, porque Juli não tinha olhos grandes e não tinha roupas pretas. Pode-se dizer meio torta, meio baixa, meio magra, meio aquela que se ignora. Não. A verdade é que quando Juli apareceu eu a ignorei como costumava ignorar tudo aquilo que pudesse soar como você. Não é verdade que Juli tinha seus olhos, seu cabelo nem mesmo seu cheiro. Juli cheirava a sabonete de leite e maquilagem barata, sorria com a boca fechada e pouco falava. Mas quando apareceu, a ignorei por ter sexo. Escuta bem que vou começar de novo. Quando Juli apareceu, tentei ignorá-la porque como de costume ignorava tudo que soasse como você, mesmo que não tivesse sua cor, seus olhos, sua bunda, suas roupas. No entanto, Juli ficou.
Acontece que tanta gente foi feita para ser abandonada, mas Juli ficou.